sexta-feira, dezembro 23, 2011



NATAL

© MURILO MENDES

Meu outro eu angustiado desloca o curso dos astros, atravessa os espaços de fogo e beija
a orla do manto divino.

E o ser dos seres envia seu Filho para mim,
para os outros que O pedem e para os que O esquecem:

Uma criança dançava segurando uma esfera azul
com a cruz equilibrada nela;
vem adorá-la brancos, pretos, mulatos, portugueses, turcos, alemães, russos, chineses, polacos, banhistas, beatas, cachorros e gatos.

A presença da criança transmite aos homens uma paz inefável que eles comunicam nos seus lares a todos os amigos e parentes.

Anjos serenos sobrevoam o mar,
os morros e os arranha-céus,
desenrolando, de combinação com a rosa dos ventos, grandes letreiros onde se lê:
Glória a Deus nas alturas
e paz na terra aos homens de boa vontade!

quarta-feira, dezembro 14, 2011

Um risco que contagia – por Edmilson Santini


Olho a olho, mãos à obra,
perante a bela figura,
minha figura se dobra;
sua caneta rasura
um risco que contagia,
livro aberto em poesia,
ganho sua assinatura.

Assina ela: Marina...
De Marina estou diante
Cola em mim sua retina,
me olhando mesmo distante.
Em volta poetas bebem,
comem, folheiam, percebem:
É Marina Colasanti.

É o Décimo-nono Congresso
de Conversa, Cantoria...
Licença aos poetas peço,
pra dizer: quanta alegria!
Tá registrado o momento,
nesse instante tão Bento:
CONGRESSO DE POESIA.

E já que estamos no Sul,
vou nessa rima dizer:
UMA IDEIA TODA AZUL
ela acaba de escrever;
livro de folhas aladas,
que voam Contos de Fadas;
É voando que eu vou ler.

quarta-feira, novembro 16, 2011

Uma cena mágica – Por Rodney Caetano


Os dois únicos dias de minha participação no Congresso de Poesia de Bento Gonçalves, em cuja abertura tive a honra de falar sobre o homenageado do ano, Affonso Romano de Sant'Anna, me proporcionaram momentos marcantes. Quero agradecer a todas e a todos com os quais compartilhei aquele momentum: a conferência, os espetáculos, o bate-papo, as declamações, a poesia, enfim, tudo de bom. Divertido foi até o comércio informal de livros na base da venda, escambo, doação... Neste agradecimento, evito citar nomes porque certamente seria indelicado com alguém, que não é alguém, em absoluto, mas um alguém muito especial que eu acabaria esquecendo de mencionar.
Mas permitam-me referir uma cena mágica, simples, que presenciei ao lado de Affonso, Marina Colasanti e Cláudia Gonçalves, na quadra de esporte de uma escola, lotada de piás e gurias de seis, sete anos de idade, cena que, à minha revelia, juro, guardou-se-me na memória, indelével.
Acompanhado de outros artistas e poetas, Jiddu fazia a contação da história de um incerto pequeno polegar japonês e ensinava a pronúncia de termos esquisitos, "arigatô", "saionará", "sashimi", e outros, a toda aquela criançada. Nessa levada, lá pelas tantas, vinha um “Tzuka Yamazaki” ou saía outro "Akira Kurosawa". E a garotada repetia tudo certinho. Hilário. Puro gozo. Ria Affonso, ria Marina.
Em certo momento do show aparece um palhaço... "Olha o palhaço", grita a molecada. E o palhaço: "Onde? onde? Adoro palhaços". E eles: "Você é o palhaço!". E ele: "Eu não sou palhaço". Poesia.

O mundo ainda tem salvação - por Dalmo Saraiva


  Naquele ano que participei pela primeira vez do Congresso de Poesia em Bento Gonçalves-RS, eu já conhecia o Bacca, mas na verdade, acho, que ele não me conhecia. E eu fui acreditando no EVENTO porque ele já era famoso. Fui bem recebido e me inteirando na filosofia e proposta de trabalho. Daí por diante, cada vez mais, me integrando e sempre me perguntava por que em outros estados do Brasil não tem um projeto de tamanha importância como esse? Sim. Não tem porque não tem uma pessoa sonhadora e idealista como o Ademir Bacca. Pessoa séria e corajosa. Sim, porque para coordenar um bando de poetas de vários pontos do país e do exterior não é mole não.
  Aí quando cheguei nas escolas, vi o nível elevado de educação e pensei com os meus cabelos alvoroçados, taí, que coisa legal! Saía das escolas bastante feliz e compreendendo a proposta do Congresso. Depois fui para Hospitais Psiquiátricos, Hospitais Normais, APAE, Centros Culturais, Bibliotecas e demais lugares e até eventos em outras cidades como Farroupilha, Veranópolis, Serafina Correia e outras cidades... Todos esses lugares alargaram o meu horizonte e me deixaram bastante feliz. Todos esses lugares são especiais, inclusive as escolas, mas a APAE, sinceramente, é especialíssima. Lá sempre chegamos com um grupo muito grande e a emoção é imensa. É uma comunhão. Não dá nem vontade  de sair de lá. Aí me remeto ao meu mais longínquo lado infantil e a brincadeira vai fluindo.
Um grande aprendizado de vida e humanismo. Pessoal! O Brasil e o mundo precisam é disso: humanismo.
  Então, é isso que o Congresso Brasileiro de Poesia de Bento Gonçalves-RS, idealizado por um grande e corajoso guerreiro (da paz) chamado Ademir Antonio Bacca, me proporciona e me deixa mais íntegro como pessoa vivente nesse mundo tão conturbado e carente de tantas coisas. Mas o mundo ainda tem salvação.

quarta-feira, novembro 02, 2011

As vivas estátuas – por Marina Colasanti

Marina Colasanti e Marco Bahrone

Passei por ele várias vezes. Em meio à multidão, mantinha-se imóvel. À noitinha passei outra vez, estava de olhos fechados. Meu deus! -pensei - adormeceu! vai cair, se machucar! Mas não, tornei a passar mais tarde, o arcanjo dourado, belas asas, espada em punho, estava desperto e ainda imóvel. Era uma estátua viva.
Li um romance certa vez - esqueço o título e peço perdão- da escritora portuguesa Lídia Jorge, em que a personagem principal era uma estátua viva, um jovem apaixonado pelo seu fazer que, decidido a levar adiante o tempo da sua performance, aumenta o tempo de imobilidade minuto a minuto, um pouco mais a cada vez, até, de imobilidade, morrer. Essa história aflora em mim cada vez que me deparo com estátuas vivas, e me levou a vê-las com olhar inquieto, protetor, como se cada uma dessas pessoas imóveis em seus pedestais estivesse em risco. Risco de mover-se e estragar pose e trabalho, risco de não mover-se e ficar preso na pose para sempre.
Semana passada, porém, no XIX Congresso Brasileiro de Poesia, em Bento Gonçalves, a porta de um elevador se abriu, e dele saiu uma estátua viva em movimento. Era de bronze e levava um cajado na mão e uma sacola às costas. Ia para a praça, imobilizar-se. Na sacola, o seu pedestal. E estando ainda maleável o metal de que era feito, pareceu-me permitido interrogá-lo.
Bahrone – esse seu nome de arte – é estátua por fora e poeta por dentro. As suas estátuas variam, faz 14 diferentes, mas o poeta é sempre o mesmo. E se manifesta quando alguém deposita dinheiro a seus pés para, em troca, receber um poema. Bahrone então desce do pedestal e cheio de movimentos recita Shakespeare, ou Drummond, ou Pessoa, ou um dos tantos poetas  do seu repertório. Um repertório que, se declamado todo de uma vez, preencheria duas horas. É nesse caudal de poesia que Bahrone pensa enquanto está imóvel.
Trancado na estátua que escolheu, um poema atrás do outro fluem silenciosos debaixo da pele de bronze, da pele de prata, da pele de mármore ou ouro.
Quem passa, não sabe. Vai, volta horas mais tarde, a estátua está lá, devidamente estática. Parece a mesma, e não é. Por dentro dessa estátua, o poema que desenrola suas palavras como filme ou musica é outro, outra a época e a mão que o escreveu. A estátua só consegue manter-se imóvel porque viaja.
      Quanto tempo uma estátua viva agüenta ser estátua? O recorde mundial, de um irlandês, é de dez horas e vinte e dois minutos de imobilidade absoluta, sem qualquer interrupção. Olho esses dois minutos finais e estremeço. Um minuto a mais, me pergunto, o que teria provocado no organismo imóvel?

terça-feira, novembro 01, 2011

Sessões de autógrafos deram um brilho especial ao XIX Congresso Brasileiro de Poesia

Affonso Romano de Sant'Anna

Além dos tradicionais lançamentos das antologias oficiais do Congresso Brasileiro de Poesia, “Poesia do Brasil” (volumes 13 e 14) e “Poeta, Mostra a Tua Cara” (volume 8), neste ano as três principais livrarias da cidade receberam escritores para concorridas sessões de autógrafos. 

 Marina Colasanti

Na Aquarela, Márcio Borges autografou “Os Sonhos não envelhecem” e “O Canto do Pássaro-preto” (Blackbird Singing), de Paul McCartney, por ele traduzido para o português. 

 Márcio Borges autografou na Livraria Aquarela

Na Livraria Paparazzi, Affonso Romano de Sant’Anna e Marina Colasanti autografaram seus livros enquanto a Livraria do Maneco recebeu os escritores Airton Ortiz e Ronaldo Werneck.

 Ronaldo Werneck e Airton Ortiz

Na Adega Cachaçaria, onde aconteceram os lançamentos das antologias do Congresso Brasileiro de Poesia, Rodrigo Mebs autografou “Por amor ou por vício”.

 Rodrigo Mebs

Todos os lançamentos foram acompanhados por vinhos e espumantes da Cooperativa Vinícola Aurora.

Autógrafos das antologias oficiais

Mais uma vez valeu Bento Gonçalves!

Por RENATO GUSMÃO

Ao final do Congresso Brasileiro de Poesia do ano de 2010, já pairava uma certeza entre todos os artistas que participaram intensamente daquele belíssimo encontro. Também como todos os outros em que participei desde 2008, ficou o intenso gosto do quero mais – A verdade é que muitos já haviam decidido seus retornos à charmosa cidade de Bento Gonçalves – RS para o reencontro com a poesia no começo de outubro de 2011.
O homenageado da XIX edição ainda não sabíamos, pois, dessa parte, sempre nos vem a surpresa, e antes do meio do ano, o nome já era revelado, porém, com uma grata euforia, pois, o anunciado, nada mais, nada menos era o consagrado escritor Afonso Romano de Sant’Anna e em sua companhia evidentemente sua esposa a também escritora Marina Colasanti, ambos, com grande atuação até o final do evento, ora lançando livros, ora palestrando ou assistindo recitais, em sobejante elegância, humildade numa discretíssima e imensurável nobreza artística.
Outra surpresa nesta edição do congresso foi a participação de um dos maiores compositores da MPB o mineiro Marcio Borges e que levou com ele todo o mistério revelado do Clube da Esquina. Mais uma surpresa: agora, falo do gaúcho Colmar Duarte, poeta, compositor letrista, e que foi patrono da XXVI Feira do Livro de Bento Gonçalves, esse que se fez presente com sua inteligência; ensinava a todos, inclusive para seus conterrâneos o modo cultural da fronteira gaúcha, e eu tive o privilegio de conhecê-lo e conversamos muito, logo no aeroporto de Porto Alegre, quando aguardávamos o translado a Bento. Daí foram chegando poetas, atores, fotógrafos, jornalistas com eles os abraços do reencontro, palavras poéticas acumuladas dentro da saudade, risos e novidades.
Também para representar o Estado do Pará juntamente comigo e levando seu recital solo Tambores do Meu Peito, o Congresso contou pela primeira vez com a participação do poeta Rui do Carmo que com sua simpatia foi logo agradando a todos através de sua poética que corre em suas veias feito braços dos rios da Amazônia.
Eu juntamente com o eletrizante poeta curitibano Rodrigo Mebs, ajustávamos o nosso brasildepontacabeça, recital que nos deixou em êxtase todas as vezes que apresentávamos nas escolas de Bento Gonçalves. Na via do destino da poesia ganhamos o reforço da talentosa e cativante May Pasquetti. Rodrigo Mebs, ainda lançou seu primeiro livro, Por Amor ou Por Vício, durante o Congresso, em noite de grande emoção.
Ainda tivemos o Quarta Capa, projeto de Jiddu Saldanha em homenagem ao poeta Mano Melo esse que participou encantando com sua declamação visceral. A apresentação do Grupo Tata Mirô do Amapá; do projeto Torre de Babel de Artur Gomes; lançamentos dos livros de Airton Ortiz e Ronaldo Wernek; apresentação do vídeo poema de Flavio Pettinichi. .
São tantos amigos que já conquistei por causa desse grandioso acontecimento que ao término de cada temporada chega a lembrança de cada um com esperança imensa do reencontro no ano seguinte: Cacau Gonçalves, Rodrigo Mebs Jorge Ventura, Fátima Borchert, Maria Clara Segóbia, Tanussi Cardoso, Jiddu Saldanha, Artur Gomes, Edmilson Santini, Isolda Marinho, Gabriel Marinho, Telma da Costa, May Pasquetti, Dalmo Saraiva, Fernanda Frazão, Eduardo Tornaghi, Andréa Motta, Ronaldo Wernek, Airton Ortiz e tantos outros poetas queridos, também os funcionários do hotel Vino Cap que nos recepcionam com tanta atenção, os amigos Zeca, Luiza e Izadora Zecchin da Cachaçaria Agenda.
Afirmo com toda certeza que o Congresso Brasileiro de Poesia em Bento Gonçalves-RS tem a cara de todos os poetas, artistas e amantes da poesia que dele participam, sim, por causa da resistência de seu idealizador e coordenador Ademir Antônio Bacca, nada disso aconteceria se não fosse a dedicação e o amor pela arte à poesia que em dezenove anos faz esse sonho contínuo ser real.
Mais uma vez valeu Bento Gonçalves!

POETAS SELECIONADOS NO PROJETO POESIA NA VIDRAÇA / 2011


Affonso Romano de Sant’Anna • Rodrigo Mebs • Wilson Dias • Jacob Armando Selbach • Dalmo Saraiva • Silvio Ribeiro de Castro • Ademir Antonio Bacca • Renato Gusmão • Vânia Gondin • Regina Mello • Eunice Arruda • Rubens Venâncio • Oscar Bertholdo • Ferreira Gullar • Janete Nodari • Luis Edmundo Alves • Tchello d’Barros • Celina Portocarrero • Marisa Ly • Ricardo Evangelista • Klycia Fontenelle • Jair Yanni • Haidê Vieira Pigatto • Bárbara Lia • Herbert Emanuel • Ricardo Mainieri • Jorge Amâncio • Alexandre Misturini • Heralda Victor • Mário Feijó • Wilson Guanais • Adão Wons • Fátima Venutti • Valéria Borges da Silveira • Sonia Albuquerque • Ronaldo Werneck • Jorge Ventura • Valeria Tarelho • Suely de Freitas Marti • Thiago de Mello • Monica Montone • Claufe Rodrigues •  Eduardo Tornaghi • Edival Lourenço • Renato Alvarenga • Astênio Fernandes • Andréa Motta • Zé Carlos Batalhafam • Laura Esteves • Angela Carrocino • Telma da Costa •  Alcione Sortica • Djanira Pio • Ricardo Alfaya • Artur Gomes • Mario Quintana • Brita Brazil • Rita Velosa • Claudia Gonçalves • Nálu Nogueira •

Ps. Foram selecionados apenas poemas que chegaram à Coordenação do Evento até o dia 23 de Setembro e tinham no máximo dez linhas.

terça-feira, outubro 18, 2011

Congresso Brasileiro de Poesia, por COLMAR DUARTE

Ademir Bacca, Marina Colasanti, Marcio Borges, Affonso Romano e Colmar Duarte

Desde o dia três de outubro, data da abertura oficial do XIX Congresso Brasileiro de Poesia, a cidade serrana de Bento Gonçalves passou a ser residência da poesia brasileira contemporânea. Palestras, encontros, debates, lançamentos, transformaram a cidade num laboratório para o qual estão voltadas as atenções de quantos neste sul da América labutam nesse campo da literatura.

Além do homenageado desta edição, Afonso Romano de Santana, um dos expoentes da poesia brasileira, estiveram presentes e atuantes, poetas do Pará, Pernambuco, Amazonas, Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro, assim como convidados de outros países, como: Venezuela, Argentina, Uruguai e Chile. Durante uma semana o saguão do Hotel Vinocap foi a central da comunicação, do intercâmbio e da confraternização da poesia de todas as partes.

Uma experiência inusitada para quem vive em uma cidade que pouco se importa com isso. Uma cidade que, apesar de ser o berço de escritores e poetas reconhecidos e prestigiados fora de seus muros, faz um arremedo de Feira do Livro; tem uma única livraria, mantida viva graças ao esforço do abnegado amigo Gilberto; deixa de receber, do Estado e da Federação, verbas significativas para a cultura, simplesmente porque não tem um Conselho de Cultura; deixa morrer a Califórnia da Canção Nativa, há quarenta anos a maior e mais importante  manifestação da música do Rio Grande, mata um Festival Temático, que despertava na consciência dos uruguaianenses a importância do rio Uruguai, para começar do zero um festival, como outros tantos, destinado a morrer na próxima mudança de governo.

Parabéns ao povo de Bento Gonçalves, capital brasileira da uva e do vinho, que respira cultura, valoriza a arte e trabalha constantemente por isso. Não é sem razão que foi recentemente anunciado como o município gaúcho que mais investe em educação.

Esse mesmo município, que mais investe em educação, está em segundo lugar na relação dos que têm a Câmara de Vereadores mais transparente do estado.  Certamente isso não é uma questão de sorte. Por trás desses números existem pessoas inteligentes e preocupadas com muito mais que o pão e o circo. Quem pensa que investir na cultura não dá voto, está redondamente enganado.

Ainda extasiado pelo que aconteceu neste Congresso, confesso aqui minha admiração e meu carinho por essa gente que faz de seus vinhedos e de seus vinhos e da celebração da arte,  motivo de orgulho. Acabara de realizar a Terceira Semana da Música, quando deu início ao Congresso Brasileiro de Poesia. Na despedida cruzamos pelos que chegam para o Bento em Dança, um festival de balé nacional.

Aliás, Bento Gonçalves acaba de fundar seu Sistema Municipal de Cultura, do qual fazem parte a Secretaria de Cultura, o Conselho de Cultura e a Fundação Municipal de Cultura. Dessa forma está credenciado a fazer convênios com o Ministério da Cultura, com recursos enormes para essa área.

Agradeço a Ademir Antônio Bacca, desde 2007, membro do Circulo Universal dos Embaixadores da Paz, de Genebra, coordenador desse Congresso, pelo convite que me deu a oportunidade conviver com os grandes nomes da nossa poesia. Acho que Pasargada é aqui. Se não for, aqui sou amigo do rei.



(Artigo publicado por Colmar Duarte no Jornal Momento, da cidade de Uruguaiana/RS)

Veja no Youtube o filme de Jiddu Saldanha sobre Colmar Duarte:

sábado, outubro 15, 2011

Foto: Jorge Bronzato Jr.
Congresso Brasileiro de Poesia
O casal literatura fala sobre a vida
Como palavras que se completam, Marina Colasanti e Afonso Romano de Sant’Anna destacam a relação entre os textos e o cotidiano

Jorge Bronzato Jr.

Ao abordar a relação entre a vida e a literatura, o casal Marina Colasanti e Afonso Romano de Sant’Anna parece estar escrevendo um novo livro, a quatro mãos e a duas vozes. Serenos, preenchem um ao outro com palavras exatas para explicar o que os leva a transformar em texto as experiências do cotidiano.
Os dois permaneceram durante toda a semana em Bento – cidade que já conhecem de outras viagens –, participando de atividades do 19º Congresso Brasileiro de Poesia, que neste ano homenageia Sant’anna e encerra hoje. Na tarde da quinta-feira, 6, no hotel em que estão hospedados,  no Centro, dividiram a conversa para contar um pouco de sua trajetória e do horizonte de possibilidades que cada um enxerga frente ao desafio de escrever sempre.
Pela manhã, Sant’Anna havia visitado o Colégio Dona Isabel, e foi recebido com trabalhos dos estudantes sobre seus livros. “Faz uma diferença muito grande você ir a lugares onde já conhecem a sua obra. Essa homenagem que me fazem aqui já começou antes, seis meses antes, quando eles começaram a estudar meus textos. Foi uma coisa fantástica”, diz o escritor.
Marina destaca que, pelo envolvimento dela com a literatura infanto-juvenil, a proximidade com o ambiente escolar se torna frequente e representa um importante elo entre o autor e o leitor. “É muito bonito você ver o desdobrar do seu trabalho, ver que ele é uma peça dessa engrenagem enorme com que estamos tentando fazer um país leitor, um país menos desnivelado socialmente”, afirma.
Sant’Anna, por sua vez, entende que o acesso aos livros ganhou, nos últimos anos, um forte impulso no país. “Há muitos programas no Brasil incentivando a leitura, entre pescadores, favelados, dentro das tribos indígenas, quilombolas, enfim, em todas as classes sociais. A leitura entrou na pauta dos políticos e na pauta da sociedade civil”.

Inspiração e disciplina

Sobre os temas que inspiram os escritos, Marina ensina que é preciso saber que se pode e, principalmente, que se deve recorrer a todos eles. “Há temas eternos, que são aqueles ligados aos sentimentos e às grandes dúvidas, de onde viemos, para onde vamos, o que estamos fazendo aqui. Mas a modernidade é parte da vida e a vida é o tema quase único da arte. O artista trabalha com esse enfrentamento cotidiano do homem, através dos tempos”.
Os dois se consideram escritores disciplinados, mas confessam respeitar muito mais o tempo pessoal de cada um do que as demandas externas de mercado. “A mim ninguém cobra. Se eu não escrever, não escrevi. Quem me cobra, sou eu, o mercado não fica batendo à minha porta. A gente que se exige. Não é só o desejo de escrever, estamos traçando um painel. Para quem está iniciando, não, mas quando se tem tantos livros como nós temos, é um painel, é um conjunto que você quer completar, e ainda está faltando um pouco disso, ainda está faltando um pouco daquilo”, completa Marina.

Viver de literatura

Segundo Sant’Anna, os caminhos que o levaram, assim como à mulher, a viver da literatura vieram muito mais “da vida” do que de um planejamento pessoal. “Meu objetivo sempre foi fazer o que eu queria, e o que eu gosto de fazer é isso. Tudo que eu tenho devo à literatura”, revela.
Mas, para seguir em frente, Marina lembra que é preciso se esforçar para manter a vitalidade. “Quando você envelhece, há duas possibilidades. Você pode melhorar, porque você fica mais exigente, porque você tem mais conhecimento, domina melhor o seu fazer, ou você pode envelhecer o seu texto, perder a vitalidade. Na poesia, isso é muito visível. E o mercado pode atropelar ou te reverenciar, você nunca sabe exatamente o que vai acontecer”.
Durante o processo de criação, eles admitem como “normal” que um busque opiniões e sugestões a respeito dos textos em produção junto ao outro. “Às vezes, é aceita. Às vezes, não”, pondera Sant’Anna. “Ah, quase sempre aceita”, fala Marina. E o papo termina em um sorriso duplo.

Projetos

Em Bento, Sant’anna lançou “Sísifo desce a montanha”, seu mais recente livro de poesia. “Tenho outros seis programados para serem feitos, estou trabalhando neles há séculos”, brinca. Um deles, de crônicas, intitulado “Como andar no labirinto” já está com a editora.
Marina conta que está finalizando um livro de minicontos, e tem outro de contos de fada em andamento, além de estar com “projetos até o ano 3000”. “A poesia corre sempre paralela, nós estamos sempre trabalhando em um livro de poesia”, justifica.
O casal planeja ainda, para o ano que vem, lançar um livro com textos escritos pelos dois sobre Clarice Lispector.

*Publicado no Jornal Semanário, em 8 de outubro de 2011.